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Eduardo Merino

A nível neurobiológico a dor emocional pode ser comparada á dor física?

O que parece acontecer é que a mesma região do cérebro que é estimulada em situações emocionais de origem pessoal e/ou social, como a dor de um desgosto amoroso, de uma traição de confiança, ou de rejeição por exemplo, é a mesma estrutura que é responsável em situações de dores físicas, como um traumatismo muscular, uma fratura de um osso, ou de uma entorse do joelho.

Se formos investigar sobre a temática verificamos que o ser humano ao caracterizar dores emocionais, utiliza terminologia idêntica à utilizada em dores físicas. Em causa de um desgosto amoroso por exemplo, as pessoas utilizam facilmente palavra como “Fiquei magoado com a tua atitude”, ou “Dói mesmo muito a traição do meu marido”. Curiosamente os investigadores observam este fenómeno ao longo da evolução da história humana.

Para isso é preciso avaliar diretamente o processamento cerebral do ser humano. Uma importante estrutura cerebral parece estar envolvida neste processo de dor emocional:Giro do Cíngulo Anterior. Uma longa estrutura localizada na parte frontal do nosso cérebro na linha medial. Esta região torna-se alerta quando as pessoas vivenciam situações de rejeição , estão de luto, ou simplesmente são influenciados por pressões da sociedade. Estudos referem que a parte dorsal do Giro Anterior, funciona como um mecanismo automático de alarme. É ele que interpreta a informação e que alerta que algo pode não estar bem a nível cognitivo. Depois desencadeia uma série de alterações emocionais como a quebra de espectativas. Desta forma conseguimos perceber que quanto mais inesperado o acontecimento for, provavelmente mais intensa será a dor sentida pelo indivíduo. No entanto essa mesma estrutura tem um papel afetivo de alerta, podendo ser percebido como angústia e agonia.

Mas então como podemos relacionar tudo isto com a dor física?

Será que existe mesmo esta relação entre as dores físicas e as emocionais?

Quando fazemos uma entorse do joelho, existe um aspeto imediato da dor que é sensorial. Funciona como um google maps, permitindo a nossa perceção saber onde a dor foi e qual a intensidade percebida. Estes aspetos sensoriais envolvem algumas estruturas muito específicas, como o córtex somatossensorial. É um mapa sensorial do corpo no nosso cérebro. É ele que guia todas as nossas perceções sobre a localização das nossas sensações. Mas há outra sensação importante que acompanha a dor. A sensação desagradável de doer. A agonia. E é aí que voltamos a encontrar o Giro do Cínculo Anterior. Ou seja, a mesma estrutura que era ativada em processos de dores emocionais.

Esta situação é evidente em pacientes com processos de dor crónica. O paciente apresenta quadros de dor quase permanente e nada parece verdadeiramente resolver.

Nos anos 50, alguns médicos começaram a fazer uma cirurgia chamada Cinguloctomia. Esta cirurgia consistia em remover uma parte do Giro do Cingulo Anterior Dorsal, ou desativar estas estruturas do restante cérebro. O resultado é algo surpreendente. O paciente refere ao médico que ele ainda sente dor, sabe localizar exatamente onde está a dor, no entanto ele afirma que a dor não incomoda tanto, não é angustiante. A mesma cirurgia foi testada em dores emocionais e casos de depressão, e o efeito foi realmente muito satisfatório.

Uma das categorias mais potentes de analgésicos são os opioides. A morfina por exemplo está nesse grupo e a endorfina, que é produzida pelo nosso corpo. Curiosamente é no Giro Anterior que existe uma grande concentração de recetores de opioides.

A dor é um mecanismo biológico de sobrevivência.

Ficou claro perceber que o mecanismo fisiológico que gere a dor no nosso cérebro é tão válido na sua representação sendo a sua origem uma dor de um traumatismo, ou de uma dor pela perda de um ente querido ou uma depressão.

Nunca ouvimos ninguém falar para uma pessoa que partiu um braço “Não ligues a isso, essa dor não tem significado”. “Isso só está na tua cabeça”. No entanto esse julgamento é usado em diversas ocasiões no caso de pessoas oprimidas na sua dor emocional.

Dor é um processo humano, real e deve ser sempre respeitado, ouvido, percebido e contextualizado.

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