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Eduardo Merino

A crença humana tutela o mundo em praticamente todas as suas dimensões. A cronologia temporal é vivida em prol de acontecimentos religiosos Anno_Domini, os vários continentes apresentam maiorias religiosas específicas dessa mesma região, e a própria dimensão social é pautada ao ritmo das várias ideologias e crenças.

Se recuarmos uns milhões de anos, verificamos que o início desta crença coincide com a evolução do nosso cérebro enquanto espécie.

Barbara King argumenta que, embora os primatas não-humanos não sejam religiosos, eles exibem alguns traços que teriam sido necessários para a evolução da religião. Essas características incluem inteligência elevada, capacidade de comunicação simbólica e algumas normas sociais. Há evidências inclusive de que o Homem_de_Neandertal fazia eventos fúnebres.

No nosso processo evolutivo, o cérebro humano triplicou no tamanho, e o seu maior foco evolutivo nos últimos 500 anos verificou-se no neocórtex. Área responsável pela percepção, pensamento, linguagem , atenção, memória e movimento voluntário.

Se viajarmos até ao córtex pré-frontal então ainda observamos essa evolução mais vincada. Esta região é responsável pelos processos de questionamento e compreensão.

Existe um unanimidade entre os cientistas cognitivos, de que a religião é uma consequência da arquitetura do cérebro, que evoluiu no início da história humana. No entanto, há desacordo sobre os mecanismos exatos que impulsionaram a evolução da mente religiosa. As duas principais escolas de pensamento afirmam que todas as religiões evoluíram devido à seleção natural e tem vantagem seletiva.

Alguns pontos que pautaram a necessidade de uma divindade e crença na evolução humana:

⁃ código social . Como espécie sentimos a necessidade de sobreviver em grupo. Mas precisávamos de regras. Algo mais poderoso que todos, seria o líder ideal, unânime, nunca sendo colocada em causa as suas leis. Foi uma forma de aplicar na sociedade, códigos morais, recompensas por bom comportamento, reputação e punição. Isso permitiria que a religião fosse usada como um poderoso mecanismo de sobrevivência, particularmente na facilitação da evolução das hierarquias dos guerreiros.

⁃ A ambiguidade da morte. Com a cognição o ser humano evolui nos processos de sentimentos complexos. Compaixão, amargura e saudade foram sendo cada vez mais importantes na conjectura social. A necessidade de acreditar que os entes queridos e os grandes guerreiros não terminariam a sua obra após a morte era essencial.

⁃ A natureza surgiu como o primeiro grande culto. Agradecer a chuva, o sol e um bom ato de colheitas passou a ser imprescindível. Acreditar que se os Deuses estivessem contentes iriam enviar boas condições climatéricas era importante na própria dinâmica tribal.

No entanto o tempo exato em que os seres humanos se tornaram religiosos permanece desconhecido. Há indícios de uma pesquisa arqueológica evolutiva mostrando evidências credíveis do comportamento religioso e ritualístico de todo/Paleolítico médio (45-200 mil anos atrás).

Pensa-se que pode ser esse o período de tempo onde surgiu a primeira evidência do pensamento religioso. A maioria dos animais exibe apenas um interesse casual nos mortos de suas próprias espécies. O enterro ritual, portanto, representa uma mudança significativa no comportamento humano. Os enterros rituais dimensionam uma consciência da vida e da morte e uma possível crença na vida após a morte. Philip Lieberman afirma que “os enterros significam claramente práticas religiosas e preocupação com os mortos que transcendem a vida cotidiana”.

O primeiro enterro conhecido de humanos modernos situa-de numa caverna em Israel, localizada em Qafzeh. Os restos humanos foram datados de 100 mil anos atrás. Os esqueletos humanos foram encontrados corados com ocre vermelho.

Crença e o cérebro

Sabe-se há algum tempo que a crença e o comportamento religioso afetam o cérebro, mais ou menos da mesma forma que todos os hábitos, sentimentos e memórias constroem caminhos neurais.

O biólogo evolutivo da Universidade Rutgers, Lionel Tiger diz que : “A religião é realmente feita pelo cérebro. É uma secreção do cérebro . Ele afirma que a raiz da crença religiosa é um impulso evolutivo para procurar essa” secreção “-

Essa secreção tem um nome : serotonina. A serotonina é um neurotransmissor que regula o humor e o apetite, estando ligada a sentimentos de felicidade e bem-estar.

“Uma das maneiras de olhar para a religião é na forna como a crença altera a serotonina no nosso cérebro”, diz Tiger. Assistir a um ritual religioso, por exemplo, pode ser uma fantástica atividade social e procedimento científico minimamente controlado, onde assistimos ao vivo a uma autêntica orquestra neurofisiológica no nosso cérebro.

A conclusão destes estudo é que a resposta neuroquímica da crença religiosa serve uma necessidade biológica dos humanos, e de uma forma extraordinária.

Muito interessante também é evidenciarmos que na ausência da crença, o ser humano não tem qualquer hipótese de recrear no cérebro condições similares a este bem-estar. França, um país nominalmente católico mas pouco praticante, apresenta uma das maiores taxas de consumo de antidepressivos na Europa.

O conforto biológica da crença é portanto um mecanismo altamente eficaz, biológico de sobrevivência.

Novos estudos estão a ser realizados, tentando investigar os próprios órgãos e não só a química neural. No passado pensava-de que a glândula pineal era o órgão da fé (alma), no entanto pesquisas recentes, aumentam a complexidade colocando este efeito da crença no divino, numa rede neural composta pelos lobos frontal, parietal e temporal. Só assim a ciência consegue entender as convulsões epilépticas promovidas em muitos rituais religiosos, bruxarias, mudanças de voz e até de personalidade.

Conclusões

A crença humana assume-se como um dos pilares da evolução e adaptação humana ao longo da sua história.

É evidente que o nosso cérebro assumiu este desenvolvimento procurando crenças, e um mundo divino, onde existem Deuses e profetas que tutelam a sabedoria, que distinguem o bem do mal e nos regulam a eternidade.

É evidente que a ciência utilizando o mesmo cérebro pensador, o mesmo que desenvolveu a crença, tenta provar que tudo não passa de um processo cognitivo altamente complexo, que nos promove estímulos cerebrais únicos, alterando o órgão e o corpo.

E é claro que a ciência não conseguiu até à data criar uma fórmula que altere os mecanismos cerebrais da mesma forma que a crença humana. Nem física nem quimicamente.

Desta forma a crença em algo que nos transcende, assume-se por um mecanismo único e irrepetível.

O futuro irá ditar quais os resultados desta dualidade entre o cérebro que pensa, tenta provar e acredita no que vê, e no cérebro que pensa e que acredita no que o transcende, mesmo não vendo nem conseguindo provar.

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4 comments on “A crença e a evolução do homem

  1. Olá Eduardo, muito interessante esse assunto. “A crença e a evolução do homem”. Acredito na evolução dos seres, sim. O universo é perfeito, e cada vez mais a ciência está evoluindo e fazendo as conexões racionais, emocionais e espiritual. Tudo é uma soma dentro do contexto evolutivo. Abraço, Miriam Carmignan

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  2. Daniel Carvalho diz:

    ‘França, um país nominalmente católico mas pouco praticante, apresenta uma das maiores taxas de consumo de antidepressivos na Europa.’ Que grande extrapolação!
    Fora isso, texto muito interessante.

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    1. Daniel não fui eu que fiz. Foi baseada na pesquisa . Quer o artigo?

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      1. Daniel Carvalho diz:

        Sim, gostava!. Estou curioso para ver como justificam essa afirmação! Obrigado Eduardo!

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