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Eduardo Merino

A questão é quase ancestral: será que as condições climáticas podem influenciar a dor e o mau estar físico?

O tema é geracional e faz parte do manual de sobrevivência de histórias e lendas que fazem parte da aprendizagem social.

E aqui nasce a primeira reflexão: por algo ser transmitido há tantos anos de geração em geração é sinal que é verdade? Claro que não. A quantidade de mitos educacionais irreais é enorme. Desde a saúde, passando pela educação social e acabando na crença.

O que fica para sempre não é propriamente a verdade, mas sim o significado e a plausibilidade de contexto. Há mitos que apesar se não serem verdadeiros, alicerçaram normas e rumos sociais. Em caso de dúvida basta darem uma vista de olhos ao Jardim de Éden e a Adão e Eva.

Basicamente para algo se perpetuar tem que ser contextualmente impactante e significativo. Tem que contagiar o momento com uma boa história, recheada de drama, onde não podem faltar os heróis e a moral da história. A verdade fica para depois…

Mas vamos voltar ao tema principal.

Durante 4 dias onde questionei 50 utentes, todos eles referiram que realmente sentiam alterações corporais nas mudanças de tempo. E não eram só dores. Mau estar geral, dores de cabeça, ansiedade e até depressão.

Nas redes sociais o inquérito foi bastante participativo com 250 pessoas e mais de 80% afirmaram que a dor era influenciada pelas variações de temperatura.

A investigação sobre o tema deixou-me ainda mais curioso. Nos últimos 20 anos existe bastante material para estudar sobre a temática, mas é tão dissonante e muitas vezes contraditório que ainda nos coloca mais questões.

Pressão atmosférica, luminosidade, vento, chuva e temperatura, são as principais variáveis a serem estudadas.

Há estudos que nos indicam que não há qualquer relação entre a dor e a mudança de clima. E estamos a falar de estudos recentes e bem delineados como este onde avaliou 345 pessoas com osteoartrite.

No entanto também temos exatamente o oposto, como este estudo que avaliou 2369 observações clinicas e referiu que principalmente em utentes em recuperação de lesões ósseas esse fator é real.

Recentemente com a nova contextualização da dor e interpretação humana, mais dados foram lançadas na mesa de investigação. Os fatores emocionais devem ser envolvidos em todo o processo de avaliação. Foi assim numa investigação publicada em 2019 em 48 pacientes diagnosticados com fibromialgia. Realmente a climática pode ser um fator determinante no complexo dor, mas dependerá dos fatores emocionais associados ao paciente.

Uma coisa tornou-se certa. A pressão atmosférica, a humidade, a temperatura e o vento, podem induzir adaptações do nosso organismo ao meio.

Há diferenças adaptativas de humanos completamente diferentes mediante o lugar onde habitam. Essas características podem ter predisposição genética e o ser humano fisiológicamente terá a capacidade de se adaptar às diferenças.

Um estudo efetuado com animais (ratos) percebeu-se claramente que o organismo reage periféricamente a qualquer mudança do meio. Objetivo é claro, proteger os órgãos vitais e mecanismo fisiológico primário. Existem sim alterações do organismo, mas para serem realmente estruturais o estímulo teria de ser muito superior ao que verificamos na natureza.

Ou seja, o simples fator físico das mudanças climatéricas não chega para justificar e precisar o tipo de desconforto.

Em 2019 um projeto inglês chamado “ Cloudy with a chance of pain”, desenvolveu uma plataforma digital de registo extremamente bem delineada. Era possível fazer vários registos por dia, adicionar hábitos de vida e estado emocional.

O estudo foi um sucesso. Durante 15 meses, 10.000 pessoas participaram numa investigação que além de tudo, elevou as plataformas digitais a um outro nível de possibilidade.

Os resultados foram contundentes e validaram o mito: realmente as condições climatéricas predispõem a dor. As variáveis que mais correlação apresentaram foram: ventos fortes, humidade e chuva forte.

Conclusão:

O ser humano deverá ser avaliado sem dissociações. Corpo, mente, meio, história, tradições e genética, estão completamente interconectados num só organismo vivo.

Todos os estudos que procurem identificar um sintoma isolando o ser humano em todas as suas vertentes será insuficiente.

Se há fatores que acompanharam o ser humano em todo o seu processo evolutivo, os climáticos estarão na lista principal. Fomos obrigados a nos adaptarmos às várias estações do ano, aos vários ambientes terrestres, adquirindo e perpetuando características genéticas específicas a essas regiões.

As catástrofes climáticas estão muito bem enraizadas no nosso DNA sobrevivente e variáveis como chuvas fortes, trovoada e picos agrestes de temperaturas, apresentam um input sensorial primitivo de defesa. Automaticamente ficamos mais tensos, ansiosos e o sistema nervoso simpático ( ação) prepara-se para o pior.

Este fator pode ser um desencadeador primário que predispõem o mau estar geral do organismo, que associados à adaptação e alteração da plasticidade do nosso corpo ao frio, humidade e vento, aumentam ainda mais esta sensibilidade.

Deixo para o fim a catastrofização que os meios digitais e sociais promovem no ser humano, promovendo o medo, outro catalizador da dor e mau estar.

Uma coisa é certa, nós não podemos controlar o clima. Podemos conhecê-lo, aprender com ele e preparar melhor a nossa adaptação.

Essa sim a verdadeira essência da nossa responsabilidade. Centrar todas as nossas energias nas nossas competências.

Seres humanos motivados, treinados e bem alimentados podem passar por alterações climatéricas sem grandes problemas.

Se sentem que o vosso corpo se perturba com a mudança climática, representa simplesmente um alerta de sobrevivência.

Perceber, contextualizar e ir à guerra. Exatamente como nos velhos tempos…

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